“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria como é” (William Blake)
A crise econômica tem várias faces. As crises pessoais também. Há, nestas últimas, a instalação do medo e a prescrição dos remédios ortodoxos, os temidos tarjas-preta das farmácias. Para as primeiras, também há recomendações clássicas, ajustes drásticos de vários tipos. De outro ângulo, entretanto, as crises são necessárias. Quero falar de alguns aspectos sutis, pouco comentados pelos analistas. Segundo Blake, estes aspectos precisam da abertura das portas da percepção para serem captados. Quero olhar a crise econômica do ponto de vista das metáforas e do mundo das sutilezas, do mundo vibracional.
Em Física, há um processo termodinâmico pouco conhecido chamado de “processo quasi-estático” (PQE). Ele faz com que a água possa ter sua temperatura diminuída lentamente, de tal modo que, ao se aproximar-se de zero grau Celsius, o sistema “não percebe” e desce a barreira desse limite sem congelar. Quando há um toque de perturbação no sistema, entretanto, ele "lembra” que está abaixo de zero, que precisa colapsar o congelamento. Neste instante se congela, adquirindo comportamento mais coerente com o meio ambiente em volta. Esse PQE, apesar de pouco enfatizado na escola, é natural. E é algo assim que se percebe no mundo econômico e financeiro dos últimos tempos. O valor do dólar no Brasil, por exemplo, estava caindo dia após dia, como se fosse um PQE. Quando estourou a crise mundial, o toque de perturbação fez o sistema “se lembrar” que precisava adequar-se ao meio. Logo começou a se mexer bruscamente para se atualizar.
Nessa linha metafórica de análise, os altos e baixos mais bruscos da moeda americana vem tendo é ainda são reflexos da mexida súbita., Mas a tendência é estabilizar em patamar mais harmonioso com o meio e mais alto do que o inicial. É preciso lembrar, ainda, que essa “estabilidade” não é um ponto ou uma linha reta. Trata-se de pequenas ou médias instabilidades -, certo “sobe e desce” é natural e faz parte da vida, como apregoa a Teoria do Caos para qualquer sistema. Previsibilidade, como quer a ciência clássica, não há. O sistema tem muitas variáveis e funciona como um sistema aberto; dinâmico e complexo. Há, sim, cenários possíveis de previsibilidades na direção da “estabilidade instável”. Pode-se dizer é que o sistema agora busca uma situação mais natural - , o que está se perdendo é o que precisava ser perdido; os excessos e abusos de um sistema econômico e financeiro fictício, no colo de um neoliberalismo exacerbado, vendido pelos nossos governos nos anos 90 como única solução.
Também é recomendável um olhar mais pessoal e direcionado às possibilidades de melhores tempos em aproximação. Não o olhar para as agruras midiáticas que reforçam o arquétipo do medo e da catástrofe. De fato, a crise econômica soma-se à crise ambiental e a estabilidade perde o chão em vários aspectos, promovendo uma onda de medos de diferentes matizes. Recomendam-se prudência nas atitudes, correções de rota, mas não para o medo. Em vez disso, mesclar a prudência com certa ousadia inovadora é recomendado pelas lentes do caos criativo. Nas fases em que os PQE são violados, as mudanças profundas são mais do que necessárias. E isso desestabiliza as instituições e os indivíduos que haviam se acomodado no nível antigo das atividades.
Nada de ênfase aos modos vibracionais negativos que se espalham por conta das crises financeira, ambiental e pessoal. É preciso e voltar a atenção às vibrações mais altas; harmoniosas, aquelas que nos impulsionam para o que somos em essência. Sabemos que ficamos plugados ao que nos sensibiliza demais. Por isso, ouvir notícia “ruim” é uma coisa, ficar plugado à ela, é outra. A sugestão é se sensibilizar-se com altos padrões de pensamento e exercícios físicos, mentais e espirituais para com eles se conectar e abrir espaço para as emoções positivas, as percepções de Blake.
Assim como nas crises pessoais, a crise econômica também tem seu período de pico. Depois, tende a decrescer e as irregularidades voltam a ser naturais. No lugar do apego à tarjas-preta recomendados pelos analistas clássicos, mudar o foco e procurar o que cada um precisa limpar e mudar radicalmente na vida são as sugestões do momento. Em breve haverá uma percepção maior de um verdadeiro sentido de evolução diante dessas crises, como acontece com todas. Sempre é tempo de confiança e otimismo para quem crê nos objetivos mais altos da evolução da humanidade.
Ivan Amaral Guerrini é físico e professor titular da Unesp, campus de Botucatu.

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