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Ter, 04 de Maio de 2010 19:37

Organização e cooperação entre catadores de lixo

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Quem os vê pelas ruas, puxando carroças de madeira e recolhendo produtos recicláveis, nem imagina a organização que existe por trás da função que exercem: a dos catadores de papéis e produtos recicláveis. Cada vez menos marginalizados e mais bem estruturados, esses trabalhadores, hoje, se organizam em cooperativas, fazem a gestão dos seus negócios, comercializam seus produtos e se inserem na sociedade.

Manuel Soares, de 56 anos, considera seu trabalho de catador a decisão mais acertada de toda a sua vida profissional. Antes, ele passou longos e tortuosos anos trabalhando na construção civil. Quando ficou desempregado pela última vez, observando os catadores, se fez a pergunta: “Por que não sobreviver como eles?”

Quem abriu as portas para Soares foi a Coopamare, cooperativa de catadores que completou 20 anos em maio. “Me adaptei rapidamente e logo já estava integrado à diretoria da cooperativa. Com menos de três anos, me tornei presidente”, diz ele. A Coopamare surgiu em 1989, fruto da associação de alguns catadores de materiais recicláveis que atuavam no Baixo Glicério, em São Paulo. Ainda naquele ano, o governo municipal de Luiza Erundina cedeu para a entidade o galpão que fica sob o viaduto Paulo VI, na região de Pinheiros.

Desde o início, os cooperados contaram com forte apoio da ONG Organização de Auxílio Fraterno (OAF), entidade religiosa e ecumênica que atua com pessoas em situação de rua. “Nós trabalhamos lado a lado. Recebemos toda a assistência social, jurídica, desenvolvemos projetos para captação de recursos. Eles também fazem a capacitação dos moradores de rua que desejam se tornar catadores cooperados”, explica Soares.

Célia Alves de Souza, coordenadora da OAF, garante que esse apoio existe até antes da própria Coopamare nascer: “A OAF é parceira e amiga dos catadores desde quando eles eram meia dúzia de pessoas, lá no Glicério. Sempre demos uma forte assistência a eles e quando a cooperativa nasceu passamos a ajudá-los tanto no processo interno, de interrelação, de apoio técnico, administrativo e contábil, como também nos cursos de capacitação, buscando parceiros, para que estes pudessem ministrar cursos na cooperativa.”

Êxitos foram logrados com esta parceria OAF-Coopamare: construíram uma biblioteca comunitária, desenvolveram cursos de alfabetização, montaram uma sala com computadores com banda larga e, numa vitória sem paralelos, iniciaram a construção de dois prédios para a moradia de 90 famílias na República (contando com o crédito de parceiros e a mão-de-obra dos próprios cooperados, que trabalham em mutirão). Manuel Soares, que chegara à cooperativa analfabeto, já aprendeu a ler e ajuda a coordenar os mais diversos projetos. “Antes eu mal sabia assinar meu nome. Hoje eu não sou um doutor da caneta, mas já sou bem amigo do caderno.”

Apesar de contar com apoios importantes, a Coopamare tem sua gestão feita por seus próprios catadores, cada vez mais articulados. “Nós fazemos toda a gestão. Temos comissões por equipes: comissão da comercialização, comissão da organização, das relações públicas, dos direitos humanos... Cada um assume um pouquinho da responsabilidade para a coisa dar certo”, diz Soares.

Sem atravessadores

Compradora do material recolhido pela cooperativa (no caso, as aparas, que nada mais são do que o papel reciclável coletado por eles), a Suzano Papel e Celulose tem um excelente relacionamento com os cooperados. “Quando desenvolvemos o Reciclato, que é nosso produto reciclado, começamos a comprar o produto dos cooperados. A outra parte provinha do nosso papel reaproveitado”, explica Luiz Cornacchioni, gerente de relações institucionais da Suzano. Para ele, o principal benefício gerado aos catadores é o fato de eles se livrarem dos atravessadores, os aparistas. “Eliminando os atravessadores, podemos gerar mais recursos para eles, aumentando o poder de gestão.”

Além de comprar o produto dos cooperados, a Suzano, por meio do Programa Investimento Reciclável, braço do Projeto Ecofuturo, do qual é umas das parceiras, também atua diretamente com os catadores, emprestando-lhes dinheiro. “Identificamos que faltavam canais para os cooperados terem acesso a crédito para fazerem uma gestão melhor. Então, desenvolvemos uma metodologia que nos permite repassar a eles, depois de aprovados seus projetos, um valor entre R$ 2 mil e R$ 40 mil”, explica Paulo Groke, gerente de projetos ambientais do Ecofuturo.

O detalhe é que o Programa de Investimento Reciclável exige o repagamento da dívida: “Nós queremos que eles entendam que participar do mercado econômico significa também saldar as dívidas contraídas. E, ao pagar, ele vai possibilitar que esse recurso seja reinvestido em outras cooperativas”, continua Groke.

Aprovada, a Coopamare também recebeu um curso de gestão administrativa e contábil. E pôde resistir com mais segurança aos efeitos da crise mundial. “Temos uma gestão muito sólida e, graças aos nossos parceiros, podemos vislumbrar dias ainda melhores pela frente”, diz, sorridente, o catador Manuel Soares. Com essa organização e com esse austero comprometimento, certamente virão dias ainda melhores para eles.

por André Carvalho

Publicado em: Canal Rh

Última modificação em Ter, 04 de Maio de 2010 19:39

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