Não queríamos repetir a rígida educação que nossos pais nos deram, por isso mesmo seguimos de perto a cartilha de educação de pais modernos, aquilo que os educadores ensinam: não bater, usar o diálogo e dar o máximo de amor possível. Não deu certo, foi um grande erro, eles não estão bem, e todos nós estamos sofrendo as consequências. Perdemos as rédeas, não temos mais autoridade. Os papéis se inverteram, eles dão as cartas dentro de casa. Tudo gira em torno de suas vontades. Vejo agora que tornamo-nos reféns de seus pedidos, exigências, obedecemos aos seus caprichos.
A coisa não vai bem, vivemos sob o teto de acusações. Como podemos corrigir esta calamidade que reina em nosso lar? Eles estão rebeldes, tornam-se agressivos quando são contrariados. Problemas na escola com os coleguinhas e com os professores, e as notas já estão ruins. As pessoas mais próximas dizem que faltam limites. O coordenador da escola diz o mesmo, que não colocamos limites nas ações de nossos filhos.
O que fazer? Onde estamos errando? O senhor pode nos ajudar? O que é necessário fazer para educar filhos hoje? Retornar à moda antiga, se for preciso dar umas palmadas?
Temos conversado com outros pais, e todos sofrem de questões parecidas, e sempre retorna a velha história de limites que, diga-se de passagem, tornou-se uma ladainha sem fim: seus filhos precisam de limites, ou seja, não estamos sendo bons pais por falta de limites.
O que é um limite? Como fazer para que funcione? Existe uma regra para isso? Estamos perdidos! Quais os limites do limite? Fazemos de tudo e não vemos resultados. A escola reclama, meu marido me acusa, meus parentes vivem me alfinetando. Tudo bem, meus filhos são sapecas, faladores, pensam mais neles próprios, são egoístas. Parece que estamos em dívida com eles, temos dificuldades de dizer não aos seus pedidos, e eu noto que isso alimenta uma insaciabilidade, um consumismo sem fim. Sempre querem mais! Não param de pedir coisas novas, brinquedos, jogos, celulares, roupas, tênis. Se os amiguinhos têm, logo eles querem ter também. São gastos desmesurados, desnecessários, que me levam a pensar que eles perderam a noção do valor do dinheiro, o quanto custa para se obtê-lo, ganhá-lo. A culpa está me corroendo, o senhor sabe muito bem, tudo vem para cima da mãe.
Obrigada.
Pais que só dizem sim!
Qual é o grande transtorno para filhos quando pais não conseguem dizer não? Falta de limites, nada mais. Isso os leva a acreditar na doce ilusão de que fora de casa, no grupo social, na escola, por exemplo, tudo será possível, permitido. São filhos que não suportam nem mesmo as pequenas frustrações que a vida do dia a dia impõe. Filhos, certamente, frágeis!
O que pensar de pais que só dizem sim aos seus filhos? Pais modernos, educados no manejo de sua função? Pais que deixaram para trás sua autoridade de pais? Que desejam ser amados, que morrem de medo de perder o amor de seus filhos? Pais irmãos, amigos? Pais permissivos, culpados, nada mais que isso.
Os filhos não devem ser alimentados somente do sim dos pais. Essa maneira de responder aos filhos é uma grande fonte de adoecimento, porque eles ficam sem instrumentos para enfrentar os obstáculos que terão pela frente em seu crescimento. Se não encontram os desafios nas primeiras relações, com os pais, como poderão enfrentar as inevitáveis adversidades que a vida apresenta?
Quando pais não conseguem mais dizer não, é certo que seus filhos terão grandes chances de se atrapalharem pela vida. Crescerão tropeçando frente aos limites que a vida nos impõe, sem saber muito bem aquilo que devem ou não fazer, o que podem ou não desejar, sem nem mesmo chegar próximo de uma justa medida ao agir. Agirão de acordo com seus impulsos, sem a mediação adequada de um limite.
O não dos pais introduz a figura do respeito no processo educativo. O respeito é algo que se inscreve como sagrado no mundo das relações humanas. O não que nasce das palavras dos pais é o que determina o limite de uma educação saudável, porque fornece suporte para que a criança possa vir a pensar, refletir e criar as condições necessárias para sua inserção no mundo, numa abertura de cidadania.
A falta do não de pais desvitaliza o desejo de filhos em sua relação com as leis da convivência comum numa vida cotidiana, portanto, filhos carentes de limites. O não dos pais alimenta os filhos em sua prática futura de discernimentos, o que podem e devem ou não. A prática do respeito! Ou seja, o não dos pais é o alimento divino que prepara filhos para o futuro.
Existe um erro lógico no seu funcionamento enquanto pais. Uma inversão de papéis, onde vocês se destituíram do lugar de pais para serem amados pelos filhos. Nesse sentido, o amor não é tão bom assim. Talvez, fosse melhor o respeito. Pergunto-me se não se fazem passar por esses filhos como as crianças idealizadas dentro de vocês. De alguma maneira, vocês se eximiram do exercício da função de pais junto a seus filhos, e se fizeram passar pelo que está dito nas cartilhas. Seus filhos se ressentem da falta de uma lei que nasça dentro de casa, uma lei conjugal que, por alguma razão, vocês não transmitiram adequadamente. Pode-se dizer que sua autoridade de pais se constrangeu, cedendo lugar aos roteiros que supostos especialistas escrevem em seus livros. Nenhum especialista pode substituir o que é da função de um pai e de uma mãe. Experimentem serem vocês mesmos enquanto pai e mãe, não deleguem a livros ou orientadores. Sejam vocês.
Todos sabem que não é nada fácil educar filhos hoje, tarefa que constitui grande desafio que todos os pais têm a enfrentar. Diante dos impasses e problemas, o fundamental é insistir, aprender com os erros, procurando sempre novas saídas. Pais não devem esmorecer diante de empecilhos, desvios ou erros que filhos possam vir a apresentar. Eles devem, ao contrário, nutrir-se de novo ânimo para ultrapassar as barreiras que brotam pelo caminhar dos filhos, suas errâncias, rumo ao seu crescimento.
Partiremos da seguinte e única constatação: não existe nenhuma garantia antecipada quanto ao resultado da educação de uma criança. O desejo dos filhos não corresponde aos ideais dos pais. Nada que seja antecipado encontra lugar aqui. Se pais querem filhos saudáveis, eles têm que correr riscos, sofrer margens de erro, o que equivale dizer, caminhar pelo fio de uma navalha. Há um imprevisível entre o querer dos pais e o futuro da vida de filhos. Por isso, pais não devem educar filhos com medo. Pais devem acreditar em suas reais possibilidades de conduzir a educação de seus filhos. O medo é o inimigo oculto de um percurso, ele é o verdadeiro alimento de um possível fracasso. Deixem que eles sejam eles mesmos.
Pais, de alguma maneira, devem estar presentes na vida íntima de seus filhos. Não é possível terceirizar sua educação, se fazerem passar pelo que as cartilhas dizem. É um erro interpor cartilhas entre pais e filhos. Filhos querem pais presentes a partir daquilo que eles têm de melhor que é a sua particularidade. Que sejam eles próprios, com suas falhas, temores, inseguranças e qualidades; suas verdades. O máximo que livros educativos fazer é sinalizar alguma coisa, mas não substituem pai e mãe, suas palavras, suas insígnias.
Vou avançar e explicar o que se passa numa relação pais e filhos. A terceirização não equivale a uma verdadeira presença da autoridade de pai e de mãe. Quando ocorre, acontece a destituição da função de pais e, portanto, teremos um preço a pagar. Ausência da presença de pais equivale à emergência de distúrbios psíquicos, a alteração de comportamento de filhos. Todo filho deseja que pai e mãe coloquem um pouco de si em seu caminhar pela vida. Eles querem que seus pais testemunhem suas angústias, tropeços, diante dos desafios que a vida apresenta.
Pais devem se colocar de corpo e alma na relação com filhos. Não existe um modelo a seguir, algo que possa ensinar uma família a educar seus filhos. Não há regras e normas que funcionem, os limites na educação de nossas crianças fazem parte de nossa modernidade, estão na ordem do dia. E você tem toda razão, fala-se da falta de limites, que temos que colocar limite, mas não temos muita clareza sobre o assunto. É isso aí!
José Nazar é Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – UFRJ). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Psiquiátrica do Espírito Santo. Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. Autor do livro: Amor de Mãe.


